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sexta-feira, 20 de junho de 2014

No Corredor

Um pequeno conto que escrevi hoje mais cedo, para dar uma movimentada aqui no cantinho.



                Apertei o botão metálico à minha frente , um de um par de gêmeos indênticos, e me pus a aguardar.
                Olhei para os lados e observei o corredor todo pintado cor de creme escuro, iluminado com lâmpadas de luz branca postas em intervalos aparentemente regulares. Ao chão, um rodapé de madeira lustrada e um piso de pedra amarelada cortada quase à largura completa de parede a parede, contornados por molduras de granito delimitando quadrado após quadrado por toda sua extensão.
                Não era um lugar feio e o quê de antigo adicionava um chame extra ao interior do prédio. As portas de madeira pintadas de branco só reforçavam a sensação de que eu estava de volta no tempo até uma época saudosa e bela que só conhecia através dos muitos livros que li.
                O visor do celular na minha mão acendeu-se em resposta ao botão pressionado em seu teclado e vi que já divagava ali por quase dez minutos. Fiquei surpreso pelo tempo ter passado tão rápido, mas ao mesmo tempo não pude deixar de indagar quanto mais teria que esperar.
                Diante da ausência de qualquer reação à minha frente, deixei a mente voar livre novamente. Pensei nos problemas econômicos e no tabuleiro novo do jogo que eu queria comprar, na fome na África e no que comeria no jantar. Pensei em como aquele corredor parecia tanto cenário de um conto de terror.
                Quase podia ver o corpo incorpóreo, pálido como uma folha de papel vegetal, deslizando suavemente em minha direção. Os cabelos esvoaçantes levantados por algum vento espectral que nenhum mortal poderia sentir naquele interior sem janelas eram negros como as algas no fundo abissal dos oceanos. Suas vestes não mais do que uma malha mortuária branca, ou talvez um lindo vestido estimado por sua dona, mas tão deteriorado pelos vermes e microorganismos que já não passava de trapos puídos e feios. As mãos esqueléticas pareciam feitas apenas de osso e pele, como se as larvas brancas em seu caixão só tivessem comido sua carne, com cuidado para não rasgar-lhe a pele sedosa que tantos homens desejaram tocar quando ainda estava rosada pelo sangue quente correndo dentro das veias e artérias.
                E seu rosto, ah, seu rosto! Uma caveira aterradora com dois buracos negros no lugar dos lindos olhos que com certeza teve, e sem qualquer sinal dos seus grandes e brilhantes cílios. Os lábios, antes finos e rosados em um leve contraste com a alvidez da pele, agora estavam comidos, revelando um interminável sorriso macabro como se a própria morte não fosse mais do que uma piada maligna.
                Não tinha unhas nem sapatos. Também não precisava deles, pois seus pés finos de moça mal tocavam o chão.
                Pensei, pelo jeito que se balançava em minha direção, que talvez tivesse morrido enforcada, mergulhada no pesar de uma paixão trágica, quem sabe amando perdidamente o único homem no mundo que não largaria tudo para estar ao seu lado.
                Talvez...

                Por fim o barulho da campainha chegou aos meus ouvidos, trazendo-me de volta à realidade. O corredor estava mais uma vez vazio e eu entrei no elevador para descer ao térreo e seguir em direção ao meu destino.

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