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terça-feira, 20 de maio de 2014

A Cidade - pt2

 Para minha sorte, chegamos à cidade de Porto dos Observadores enquanto anoitecia. Não acredito que iria conseguir dormir outra noite dentro do carro.
 Na fraca luz do ocaso, andamos devagar com o carro pelas ruas de paralelepípedo, chegando finalmente à principal da cidadezinha. Era mais larga que as outras e dava para dois carros andarem lado a lado em cada mão. Procurávamos o hotel onde Abraão havia feito a reserva.
 De longe eu podia ver a construção mais alta da cidade se aproximando lentamente, uma igreja construída em estilo barroco. Toda branca com detalhes em pedra, tinha duas torres coladas à parede frontal com um sino dourado no topo de cada. As janelas eram simples, mas a porta de entrada era imponente, dupla e alta, feita com o que parecia ser madeira das mais nobres. Bem trabalhada, mostrava a imagem de inúmeros anjos com seus cabelos cacheados guardando a entrada.
 Observei tudo isso enquanto passávamos pela frente, e ficou um gosto amargo na minha boca. Tinha algo de errado com aquela igreja, mas eu não sabia o que.
 Passamos direto por ela, indo em frente. Meus pensamentos ainda se arrastaram pela construção por mais alguns segundos, até outra coisa aparecer.
 “Você sabe onde fica o hotel?”, perguntei para Abraão.
 “Não.”, ele respondeu. “É o único da cidade, não pensei que fosse difícil de encontrar.”
 “Não acredito nisso...”, retruquei. Olhei pela janela e só então reparei como aquela cidade parecia vazia. Não havia ninguém nas ruas e eu não lembrava de ter visto uma alma que fosse, agora que parei para pensar.
 “Na verdade eu contava com o plano B de pedir informações a transeuntes, mas parece que esse também foi pelo ralo. Parece uma cidade fantasma isso aqui!”, ele exclamou, lendo meus pensamentos.
 Só que não era uma cidade fantasma. Conforme avançávamos, os postes de luz se acenderam e era possível até certo ponto perceber movimento dentro das casas, embora nem uma pessoa pudesse ser vista nas ruas. Nosso carro também era o único transitando.
 A tensão começou a se acumular dentro de mim quanto mais a gente rodava pelas ruas de pedra e o céu mudava lentamente para um azul marinho que não tardaria a se tornar preto. Corri os olhos pelos arredores, sem saber se tentava encontrar o hotel ou se esperava ver os olhos espreitando novamente.
 “Achei!”, meu amigo exclamou. “Ali está, viu?”
 Olhei para a direção que ele apontava e vi uma construção não tão grande quanto se esperava de um hotel. Era um sobrado, um tanto largo. Dependendo da profundidade poderia ser o dobro, mas aparentemente só haviam cinco quartos disponíveis no tal “hotel” e o que provavelmente seria a recepção no térreo.
 Também não havia estacionamento, por isso estacionamos perto da entrada, no meio fio mesmo. Antes de entrar dei mais uma espiada na fachada, onde podia ler em letras grandes e vermelhas o nome “Hotel Bartimeu” contrastando contra cor azul do fundo. A porta de entrada era de vidro e a recepção era muito bem arrumada, com carpete vinho e sofás cinzas bem aconchegantes para que se pudesse esperar sua vez de ser atendido com conforto.
 Observei que, pela quantidade de espaços no claviculário atrás da recepcionista, o hotel tinha em torno de dez quartos o que parecia pouco se comparado com o que eu estava acostumado, mas com a aparência daquela cidade me perguntei se não era um exagero ter tantos cômodos assim.
 Enquanto eu divagava, Abraão andou até a mesa da recepção e começou a falar.
 “Boa noite, meu nome é Abraão Mattos e eu fiz uma reserva para um quarto para dois.”, ele disse e em pouco tempo estava em suas mãos a chave amarela de metal que abriria a porta para o quarto 203, que era o nosso.
 Subimos pelas escadas, a única opção, e andamos até o quarto. Os corredores também eram forrados com carpete no chão e as paredes pintadas de azul bem claro. As lâmpadas fluorescentes no teto amenizavam os arredores e tornavam fáceis de se ler os números nas portas de madeira escura. Não demoramos muito para achar o que procurávamos.
 Era um cômodo simples. Duas camas de frente para um armário embutido na parede. Do lado oposto à porta havia uma janela com vista para a rua e ao lado da cama mais próxima uma porta que levava a um banheiro minúsculo.
 Escolhi a cama mais distante da janela, acho que ainda como resultado da noite anterior. Novamente dormi a noite inteira sem qualquer sonho. Praticamente fechei os olhos e então reabri, praticamente sem perceber a passagem do tempo.
 Acordei bem cedo, pouco depois do nascer do sol. Ainda eram seis e meia da manhã, mas troquei o pijama por algo melhor e saí para respirar um pouco do ar fresco da manhã, talvez aproveitar um pouco da calmaria antes de chegar a hora das pessoas irem trabalhar. No entanto, para minha surpresa, as ruas já estavam lotadas.
 Não só aqueles indo para o trabalho ocupavam a rua, mas muitos pareciam já estar trabalhando há algum tempo. Será que meu relógio estava errado? Ou era costume ali na cidade madrugar? Estava realmente surpreso e isso transpareceu no meu rosto, o que notei quando cada vez mais pessoas passavam olhando para mim.
 “Bom dia.”, disse de repente uma voz ao meu lado.
 Olhei para o lado, um pouco assustado e me deparei com um senhor de cabelos grisalhos, mas que em nada transmitia fraqueza. Seus olhos eram profundos e vivos e sua postura bem rígida. Vestia-se com uma roupa social e um blazer cinza escuro, sem gravata. Sua voz era profunda e dizia muito mais sobre aquele homem do que sua aparência. Seja lá o que ele tinha passado na sua vida havia esculpido as rugas em seu rosto e deixado uma marca ainda mais profunda nas frases que ele dizia.
 “Bom dia.”, respondi desconcertado. “Posso... hum... Ajudá-lo?”
 Era difícil me fazer hesitar assim. Como próprio da minha profissão como advogado, eu era muito bom em falar e muitas vezes mesmo intimidado conseguia manter a compostura na hora de me expressar. Era uma desenvoltura que já vinha desde a infância, mas que tinha aprendido e desenvolver também ao longo dos anos.
 “Você deve ser um dos visitantes que recebemos ontem à noite, estou correto?”, ele perguntou.
 “Sim.”, falei. Me perguntei se deveria me apresentar primeiro ou esperar que ele o fizesse. “Você é...?”
 “Eu sou o delegado Roberto Patrício. Estou aqui para lhes dar as boas vindas em nome da prefeita.”, ele disse, mas não me senti nem um pouco mais bem vindo. “Ela sente muito por não poder vir pessoalmente, mas mesmo uma cidade tão pequena tem seus problemas.”
 “Ah... Não acho que ela precisasse. Somos só dois visitantes.”, eu falei, sem jeito. “Aliás, eu sou Gustavo de Alcântara.”.
 “Muito prazer, Sr. De Alcântara. É uma tradição da cidade receber nossos visitantes da melhor forma possível. Espero que aproveitem ao máximo sua estadia e saibam que estaremos sempre de portas abertas para recebê-los.”
 “Ah... Muito obrigado.”, respondi.
 “Agora, se você me der licença, pretendo voltar aos meus afazeres.”, ele falou e se retirou. Continuei olhando enquanto ele se distanciava, admirado com a rigidez daquele homem. Ele com certeza carregava com honra a responsabilidade do cargo.
 A visita me incomodou um pouco. Pensei em voltar para o quarto, mas Abraão ainda dormiria por mais um bom tempo então decidi que ia dar uma volta pela cidade.
 Caminhei distraidamente pela calçada. Agora vários carros transitavam pela rua de pedras, alguns novos e bonitos e outros bem antigos, mas conservados. Os semáforos eram bem sinalizados e com os comércios abertos era bem fácil de encontrar o que se desejava. Parei em uma padaria para comprar um café e logo continuei minha caminhada.
 A cidade era realmente muito bonita quando ganhava vida assim. Dava para se ter uma perspectiva totalmente nova das casas com arquitetura antiga e das ruas sem asfalto. Imaginei como deveria ser bom morar aqui.
 Sem que eu percebesse, meus pés me levaram ao longo da rua principal e maravilhado com tudo, mal percebi que o prédio ao qual me dirigia não era outro senão a igreja. Quando cheguei em frente à pequena escadaria que finalmente parei como se atingisse uma parede.
 Subi lentamente cada degrau, quase solenemente, movido pela curiosidade. Parei um momento para observas as grandes portas, mais altas do que duas vezes a minha altura. Os anjos estavam lá, guardando a entrada para o santuário, mas agora de perto pude notar que eles não tinham olhos. Nenhuma estátua naquela igreja tinha, conforme percebi enquanto entrava.
 Andei lentamente pelo corredor principal, olhando toda a riqueza da construção. Altamente detalhada, lindamente esculpida, cada parede parecia contar sozinha uma história inteira, e tudo era coberto por ouro. Anjos, virgens, bebês e até demônios, todos eram dourados, como se dissesse que há amor nos céus para todos, mesmo os mais vis.
 No altar, detalhadamente esculpido, havia uma urna no fundo, e duas portas que ficavam coladas nas paredes laterais. No centro, uma enorme cruz em tamanho real carregava uma estátua crucificada.
 Eu passava pelos bancos de madeira escura e antiga e tudo emanava uma incrível solenidade. Estava imerso nessa sensação de viagem espiritual quando fui trazido de volta violentamente para a terra pela mão delicada que tocava meu braço.
 Era uma senhora que parecia ter aproximadamente a minha idade, com os cabelos negros presos atrás da cabeça e um vestido longo azul marinho de mangas compridas com algumas rendas na cintura e nos pulsos. Seu rosto mostrava pouquíssimas indicações da idade e se passaria fácil por uma moça bem mais jovem se não fosse a aura solene ao seu redor. Mais uma pessoa que parecia digna de respeito nessa cidade.
 “Roberto procurou vocês?”, ela perguntou, com um sorriso afável.
 “Roberto...?”, eu falei. “Quer dizer o Delegado?”
 “Sim, ele mesmo. Pedi que ele levasse a vocês as minhas boas vidas ontem.”
 “Ah, então a senhora é a Prefeita da cidade!”, exclamei. “Muito prazer, meu nome é Gustavo de Alcântara.”
 “Eu me chamo Margareth Gusmão, e sim, sou a Prefeita desta cidade. Fico feliz em saber que minhas felicitações chegaram a vocês. É uma tradição da cidade.”
 “O Delegado mencionou.”, eu disse.
 “O que o traz aqui, Gustavo?”, ela perguntou sorrindo. “É um homem religioso?”
 “Não realmente. Minha família inteira é, mas nunca me senti especialmente atraído pelo místico.”, falei vagamente. “Pelo menos não por nenhuma religião em específico.”
 “Sei.”, ela falou, com a voz bem baixa. A força com que segurava meu pulso aumentou enquanto ela continuou. “Então devo lembrá-lo que esta é uma casa da fé. Cuidado com o que o senhor faz aqui.”
 “Ah. Não vou desrespeitar a religião da senhora e nem de seus conterrâneos, lhe asseguro.”, afirmei, pois me considerava uma pessoa sem preconceitos, principalmente religiosos. Claro que não sabia ainda o que encontraria ali.
 “Será?”, ela retrucou e soltou minha mão.
 Recuei um pouco, não exatamente assustado, mas estranhando aquilo. Me virei e caminhei até o altar, talvez para provar que nada ali poderia me surpreender ou então para fazer alguma reverência respeitosa que mostrasse que ela estava errada. Não sei ao certo o motivo que me fez cruzar mais a grande distância que me separava do palco das cerimônias, mas ao chegar perto notei que estava tudo errado.
 A figura crucificada não tinha olhos também, como eu já esperava depois de ver todas as outras estátuas, mas diferente delas, ele era feito de carne e osso. O sangue coagulado no chão ao seu redor era verdadeiro e ainda fedia a ferro. O homem, de feições indígenas como a grande maioria dos moradores da cidade, vestido como um membro de uma tribo, já estava morto e seus olhos haviam sido retirados. Eu não sabia dizer se antes ou depois.
 Olhei para trás apavorado e contra a luz forte que entrava pela porta escancarada, a silhueta de Margareth me encarava, toda negra e uniforme, mas seus olhos destoantes e bem definidos, vendo tudo.
 “Será...?”, a pergunta ressoou mais uma vez, talvez nunca dita pelos lábios da mulher, mas transmitida pelos olhos penetrantes, destacados contra sua silhueta.  

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