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terça-feira, 20 de maio de 2014

A Cidade - pt1

 “Merda!”, exclamei, enquanto olhava o sangue começar a sair do pequeno corte na ponta do meu dedo. Deixei a faca em cima da mesa, ao lado da laranja que eu descascava e me levantei para fazer um curativo.
 Andei até o outro lado da sala, onde a caixa de primeiros socorros repousava sobre uma curta prateleira de aproximadamente quarenta centímetros. Ambos eram feitos de madeira, artigos antigos de marcenaria que pareciam já estar ali desde antes de eu nascer e muito provavelmente durariam até depois da minha morte. Tirei o curativo, um pequeno círculo autoadesivo, e colei em cima do machucado.
 Olhei para o relógio preso na parede, cujos ponteiros apontavam três horas e vinte e cinco minutos da tarde. Ainda faltavam quinze minutos para a hora combinada e eu sabia que ele não chegaria atrasado. Abraão nunca se atrasava nem se adiantava, mas estava sempre na hora. Tínhamos marcado de nos encontrar ali naquele dia, embora eu tivesse chegado alguns dias mais cedo por estar de férias no trabalho.
 Sentei-me de novo à mesa e terminei o trabalho com a laranja, cortei-a em pedaços e os comi como se fossem gomos de uma tangerina. Já estava na metade da fruta quando ouvi o barulho da campainha tocando.
 Como esperado, ao abrir a porta logo vi a figura do meu amigo. Baixo e magro, com a franja negra de sempre escorrendo pela testa contrastando com o resto do cabelo curto e vestindo a usual camisa esporte fino xadrez por dentro de uma calça social preta. Por trás dele, a paisagem campestre parecia ainda muito pouco natural aos olhos de alguém como eu que tinha vivido a vida inteira em uma cidade, mesmo já estando nesse pequeno casebre há dois dias.
 “Então você conseguiu mesmo achar esse fim de mundo!”, ele exclamou a me ver abrindo a porta.
 “Não foi tão difícil assim. Mas não foi uma única vez ao longo do caminho que me perguntei se não tinha me perdido.”
 “Como eu disse, é um fim de mundo”, ele repetiu e ambos sorrimos. Apertamos a mão um do outro solenemente e trocamos um abraço com rápidas palmadas nas costas. Era quase um ritual dentro de nossa amizade, esse cumprimento, e sempre que nos víamos depois de um longo tempo nós o repetíamos.
 Em seguida Abraão limpou os pés no capacho e nós entramos pelo estreito corredor branco com chão de madeira lustrosa. Não estava assim quando cheguei, mas me pus a limpar todos os cantos empoeirados nos dois dias em que esperei pela chegada dele. Nunca fui fã de serviços domésticos, mas parecia o mínimo que podia fazer depois de ficar ali de graça.
 “Essa casa é sua?”, finalmente pude fazer a pergunta que tinha rodado minha mente desde que fui convidado. Não lembrava dele ter comentado sobre comprar uma casa de férias nem nada.
 “Não exatamente.”, ele respondeu com simplicidade. “Era de um tio meu que morreu sem deixar filhos.”
 “Ah, entendo. A herança ainda não foi dividida direito.”, falei e decidi mudar logo para o assunto principal. “Você pretende explicar porque combinou de se encontrar comigo aqui?”
 “Depois a gente fala disso. De qualquer jeito não vamos partir hoje mesmo.”, ele comentou distraído. “Quero comer alguma coisa primeiro. O que você trouxe Gustavo?”
 “Algumas frutas e comida instantânea. Mas o que você quer dizer com...”, eu comecei, sério.
 “Acho que não dava para esperar outra coisa de você mesmo!”, ele me interrompeu, sorridente. “Sempre comida instantânea! Não sei como consegue não engordar. Vou no carro pegar as compras que fiz.”
 Pensei em perguntar mais uma vez sobre o motivo dessa viagem, mas ficou bem claro que ele não me responderia, principalmente depois de cortar minha frase na metade e fingir que nada havia sido dito. Não havia jeito senão esperar.
 Saí da cozinha e fui para a sala de estar, onde me sentei em um sofá de pano com estampa listrada vermelha e azul marinha, de frente para uma pequena televisão com uma antena bem antiga em cima dela, que recebia pessimamente qualquer sinal. Não tentei ligar o aparelho, apenas me sentei e fiquei ali, olhando para o nada.
 Depois de algum tempo Abraão voltou e sentou no outro sofá que estava posto perpendicularmente ao meu, formando um ângulo de noventa graus. Ambos tinham três lugares e formavam um L.
 Ninguém falou nada por algum tempo, até que ele quebrou o silêncio.
 “Você já ouviu falar da cidade de Porto dos Observadores?”, ele me perguntou.
 “Nunca.”, respondi.
 “É esperado. A cidade é muito pequena e não se destaca em nada. É o tipo de lugar do qual poucos moradores saem e ninguém de fora entra. Foi por sorte que descobri sobre ela!”
 “E o que tem?”, perguntei. Sabia que ele falaria em seguida, independente de minha pergunta, mas pareceu apropriado para mostrar que estava prestando atenção.
 “Ela chamou minha atenção pela lenda de sua criação, a princípio. Dizia que ali habitava uma tribo indígena bastante peculiar, embora eu não saiba ainda o porquê dela ser considerada assim. Segundo o material que eu li, os sacerdotes da tribo entravam em certo tipo de transe quando se sentavam de frente ao mar para meditar e às vezes ficavam lá por dias, parados, sem comer nem beber nada.”, ele seguiu explicando. “Era chamada de Meçuú, mas o nome foi traduzido durante a época da ditadura militar”.
 Olhei para ele esperando que dissesse mais alguma coisa, mas eventualmente percebi que essa era a história toda que ele contaria por enquanto.
 “E o que há de curioso nessa história? Parece bem comum, se me perguntar.”, eu disse, sabendo que ele só estava esperando essa pergunta para revelar o fato mais importante.
 “Aí é que está!”, ele exclamou, animado. “O segredo está no nome da cidade. Meçuú. Eles a chamavam assim, mas quando pesquisei também se referiam a ela como Maçeuú ou Masseuú que podem ser traduzidos como olhos amaldiçoados.”
 “Então a cidade sofre com a maldição de alguma tribo indígena que foi dizimada pelos conquistadores europeus?”, perguntei, nem um pouco surpreso com aquela lenda. Devido à história de colonização do nosso continente, era o tipo de lenda que se
espalhava por quase todas as cidades, principalmente as pequenas onde o povo era mais propício a esse tipo de crendice.
 “Não, por incrível que pareça.”, ele falou com o sorriso se alargando em seu rosto. “Eles conviveram em harmonia e aos poucos foram misturando as etnias até praticamente todos serem descendentes tanto de indígenas quanto de europeus. Até onde investiguei não há sangue manchando a história da cidade.”.
 “Sem sangue, hein...”, repeti, descrente.
    ***
 Dois dias depois nós partimos para a tal cidade. Fomos no carro de Abraão, que tinha tração nas quatro rodas e assim era melhor que o meu sedan para ficar rodando pelas estradas do interior.
 O caminho foi agradável, tínhamos gosto musical parecido e a região não era quente então pudemos andar com as janelas abertas até certa hora, quando os mosquitos começaram a importunar de tal forma que não era mais possível aproveitar o vento agradável do veículo em movimento.
 A vista do campo era, sob certo aspecto, calmante. Tudo parecia tão novo e inexplorado que por um momento me senti de novo como uma criança, querendo correr por cada metro de grama e procurar por passagens escondidas e outras novidades da floresta. Me contentei em explorar com meus olhos enquanto conversava sobre assuntos aleatórios com meu amigo de infância que dirigia.
 Quando o relógio marcou meia noite, decidimos parar o carro ao lado da estrada para descansar. Abraão não queria, estava ansioso demais e por um momento eu pensei em dirigir durante a noite para fazer-lhe esse agrado, mas me parecia mais seguro dormirmos os dois. Estávamos muito longe de qualquer civilização, ou pelo menos assim aparentava, e tinha certeza de que era melhor estarmos ambos bem acordados e descansados quando continuássemos a viagem para que pudéssemos contornar qualquer eventualidade.
 Levou um tempo para vencê-lo na discussão, mas finalmente consegui e assim paramos em cima da grama que margeava o caminho de terra, a alguns metros de distância, claro, para evitar acidentes. A noite ali era completamente escura e os faróis sozinhos faziam um trabalho muito precário, portanto qualquer carro que passasse poderia nos acertar por acaso se ficássemos muito perto da pista e isso seria um grande infortúnio.
 Demorei bastante para dormir imerso naquele silêncio desconcertante. Fiquei ali, olhando a janela entre mim e as estrelas que brilhavam mais forte do que eu me lembrava de já ter visto na minha vida. Parecia até que estava em outro planeta. Não cheguei a perceber quando adormeci.
 Sonhei com dois olhos sem silhueta me observando, como se toda a escuridão infinita fosse um corpo. Fixos em mim, aqueles dois círculos não brilhavam, eram vazios, e mesmo assim transmitiam uma emoção forte e indescritível. Me prendiam, me puxavam, me rasgavam de uma ponta à outra e expunham o que havia dentro. Eram desagradáveis.
 Acordei um pouco exaltado, sentando como uma reação involuntária. Minha cabeça raspou no teto do automóvel, mas mal reparei, porque agora estava acordado e mesmo assim os olhos ainda estavam lá, penetrantes, atrás do vidro do carro.  
 Mantive o autocontrole enquanto olhava fixo para o que quer que aquilo fosse, com meus olhos bem abertos, talvez até arregalados, fazendo força para mantê-los atentos a qualquer movimento, até que não aguentei mais e pisquei.
 Nessa fração de segundo eles desapareceram sem deixar qualquer sinal de sua presença senão o frio na minha espinha.
 Fiquei em dúvida se deveria sair para investigar. Não queria acordar Abraão que roncava em um sono profundo, mas eu me sentia inquieto. A impressão causada por aquilo tudo era forte demais.
 Por fim, decidi estivar meu braço e acender os faróis do carro. A luz forte surgiu iluminando com tamanha intensidade como só é possível naquele tipo de escuridão. Dava para enxergar não só um bom pedaço à frente como um pouco para os lados também, mas não havia nada além de grama.
 Observei atento a barulhos e movimentos, mas nenhum estímulo chegou aos meus sentidos. Depois de vários minutos de tensão estática, desliguei de novo as luzes do carro, inconformado.
 Não consegui dormir de novo naquela noite e quando finalmente meu companheiro de viagem acordou, já estava exausto de esperar. Não expliquei de imediato o que havia acontecido, precisei dormir primeiro. As reclamações e protestos do outro ocupante do automóvel desapareceram quase que instantaneamente enquanto minha consciência se esvaía.
 Dessa vez não sonhei. Só dormi, sem qualquer noção de tempo, até que acordei finalmente. Vi no relógio que só haviam se passado seis horas e estava na hora do almoço. Aproveitei a pausa para contar a minha história noturna.
 Ele pareceu um pouco surpreso a princípio, mas aceitou muito bem os fatos que narrei. Muito melhor do que eu esperava que fosse.
 “Messauú.”, ele disse, depois de pensar um pouco.

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