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sábado, 17 de março de 2012

Hospital - pt 2


Corri.
E assim cheguei onde eu estava agora, pronto para voltar para o hospital. Talvez pronto não seja o termo certo. Sabia que tinha que voltar, mas estar pronto era outra história completamente diferente.
Pensei em Natália. Quem sabe a ajuda já não estava a caminho? Qualquer pessoa, algum tipo de resgate. Será que é muito estranho um pré-adolescente como eu desejar algo assim? Uma situação dessas faz a gente perceber que por mais que queiramos parecer independentes e adultos, nós ainda não somos mais do que simples crianças.
Mas algo me dizia que ninguém viria, e mesmo eu tentando ignorar esse algo ao máximo que eu podia, ele foi suficiente para me fazer andar de volta para o prédio abandonado e buscar um jeito de sair sozinho.
Cada passo parecia tomar toda a energia do meu corpo.
Até que cheguei. Fiquei parado encarando aquele monstro, aquele gigante de concreto, por vários minutos, como se eu esperasse que ele se levantasse e educadamente me desse passagem, mas ele ficou parado me desafiando. “Entre”, ele dizia, “Sinta-se em casa!”.
Respirei fundo e aceitei o desafio. Entrei.
O prédio continuou o mesmo, acabado e velho, e eu liberei um suspiro de alívio. Agora que eu estava aqui dentro, me veio à cabeça que eu poderia procurar mais uma vez pelos oito desaparecidos.
Alguém procuraria na minha situação? Digo, se tem um ser humano nesse mundo que faria isso, faço questão de reverenciá-lo depois que ele provar o feito, mas eu não era esse ser humano e por isso corri para a outra porta. Já tinha visto demais pra uma noite. Derrubei várias cadeiras e outras coisas que heroicamente haviam conseguido se manter de pé ao longo dos anos, até finalmente alcançar meu destino.
Que continuava trancado.
Recostei em uma parede e me deixei escorregar para o chão, as mãos no rosto, finalmente chorando. Quando reabri os olhos a sala estava agora nova e iluminada. Berrei mais alto do que jamais achei que pudesse. Chutei as paredes e a porta de vidro, quebrando-a.
-Meu Deus... Deus! - eu chorava - Eu quero sair daqui... Deus, me tira daqui!
-O que você tem? - perguntou uma enfermeira se aproximando de mim. Eu berrei mais alto ainda, me sacudi, me debati, soquei, chutei, até que o cenário voltou ao normal, decrépito e semi-destruído.
Me encolhi de novo, tapando os ouvidos e os olhos fechados firmemente, chorando.
Então algo me tocou.
-Tiago!
-João? - eu reconheci a voz, enquanto levantava a cabeça para olhá-lo.
-Sim, sou eu!
-Eu também estou aqui. - disse a voz de Cristina.
-O que aconteceu? - perguntou João.
-Eu estou ficando maluco.
-Conte-me. - disse ele, e eu contei tudo, desde Natália, até o velho no quarto. Contei sobre como corri e sobre como a entrada se iluminou e o vidro se quebrou. E eles me ouviram desabafar, e quando terminei, João começou a falar do que aconteceu com eles. - Do nosso lado foi um pouco diferente. Quando você entrou pelo buraco na parede você sumiu. Esperamos em cima da cama até há pouco tempo, quando decidimos sair e procurar por alguém, e assim chegamos aqui, onde encontramos você.
-Como pode? Já passaram horas desde que eu me separei de vocês... Não podem ter esperado esse tempo todo lá!
-Na verdade... Foi pouco mais de meia hora, Tiago... - disse João.
-Eu não agüento mais isso... - eu reclamei.
-Eu também não! - exclamou Cristina.
-Vocês dois querem parar com isso! Tiago, sinto dizer, mas eu não posso assegurar que você não estava alucinando, porém, não acho que você estivesse. Olhe para a porta de vidro. Calma, eu sei que ela está inteira, eu quero que você me diga o que está vendo do outro lado. - eu olhei, e olhei com atenção redobrada, mas não vi nada.
-Ah! Eu não vejo nada... - disse Cristina.
-Eu também não... - concordei com ela.
-Como não?! O chão está todo cheio de cacos...  - e eenquanto falava ele desapareceu. Simplesmente isso. Sumiu. Foi por quase um piscar de olhos, mas ele desapareceu em pleno ar e tão repentinamente ele reapareceu. - Eu... Eu vi a sala que você descreveu... E a porta quebrada....
-Você sumiu daqui. Foi por pouquíssimo tempo, mas sumiu.
-Pouco tempo? Eu devo ter ficado no mínimo umas duas horas lá!
-Eu estou com medo! - interrompeu Cristina, se agarrando ao meu braço, o que, apesar de toda aquela situação, me deixou um pouco sem jeito. No fim das contas, por mais amedrontado que eu estivesse, ainda era um pré-adolescente entrando na puberdade, e aquele braço tocando todo o corpo dela desde o peito até pouco abaixo da cintura passou a ter o tato mais apurado na face do planeta. Que atire a primeira pedra aquele que nunca passou por essa fase!
-João... - comecei a frase, mas não cheguei a terminá-la, porque a pessoa a quem eu ia me dirigir já não estava mais ali.
-Cadê ele? - Cristina perguntou.
-Eu realmente queria saber... Já estou cansado demais disso! Espero que esteja bem, assim como espero que todos saiamos ilesos de prédio maldito!
E então nós recomeçamos a andar. Pensei em deixá-la sentada em algum lugar, para evitar maiores traumas, mas estou certo de que se o fizesse não ia mais vê-la, assim como achava que jamais falaria de novo com João e Natália. Porém eu não estava afim de levá-la de volta para o banheiro cheio de sangue, onde eu queria investigar melhor. Não me ocorria mais nada a fazer a não ser procurar por mais alguém dos grupos.
E agora?
Olhei para Cristina, que mantinha a cabeça grudada no meu braço e tentei descobrir algum sinal de o quanto faltava para ela alcançar o limite. Ia me sentir muito culpado se sofresse um colapso nervoso por minha culpa. As pessoas dizem que o medo faz as emoções de alguém ficarem mais fáceis de se ler, mas para mim aquilo era impossível. Eu era uma completa negação para entender o que ia dentro do coração dos outros, em qualquer situação que fosse. Então resolvi perguntar.
-Você acha que agüenta mais um choque?
-O quê? - respondeu ela me olhando com o que parecia ser a ameaça de novas lágrimas.
-Eu queria voltar até os banheiros aqui do térreo. - “Ah, droga, por favor não responda que não quer ir!” eu pensei, mas sentia ali no fundo uma pequena esperança de que ela dissesse que não queria ir, para eu poder desistir daquilo e ficar ali.
-Eu... - ela começou, hesitante - Eu acho que consigo.
-Você está considerando também qualquer coisa que possamos encontrar lá, né?
-Espero encontrar todo mundo lá rindo da nossa cara. - ela falou, forçando um risinho tremido.
-Eu também.
E assim continuamos até o banheiro, que estava escuro como antes, e com forte cheiro de ferro chegando às minhas narinas. Apontei a lanterna para a entrada, logo em frente aos meus pés, e fui subindo.
O chão negro virou vermelho e voltou a ser negro conforme a esfera de luz ia andando pelo cômodo, até iluminar algo que não estava ali antes.
Eram do outro grupo! Pessoas!
Bruno estava deitado no chão, enquanto Helena sentada em cima do quadril dele, deixava a cabeça frouxa, jogada para trás. E eles eram dois corpos sem vida, sujos do branco cadavérico que infectava aqueles que nunca mais acordariam. Desliguei a lanterna bem rápido, tentando evitar que Cristina visse aquilo.
-O que foi? - ela perguntou.
-Não sei, acho que... É a pilha. - minha voz falhou no meio da frase, mas acho que ela interpretou aquilo como se eu não tivesse certeza de qual era o problema.
-Você chegou a ver algo no banheiro?
Olhei de novo para a escuridão onde eu tinha visto os dois.
-Feche os olhos e conte até vinte. - eu disse, de repente.
-O quê?
-Feche os olhos e conte até vinte. Quando você abrir os olhos eu vou fazer uma mágica. - falei, e ela me obedeceu.
-Um, dois, três, quatro, cinco, seis,... - acendi a lanterna e olhei para os corpos. Subi um pouco mais a luz e vi escrito com sangue na parede “VIVA LA VIDA”. Embaixo das letras um espelho refletia os olhos vidrados de Helena, que embora não estivessem virados diretamente para mim, pareciam me encarar condenadoramente. -..., doze, treze, quatorze, quinze, ... - apaguei a luz, concluindo a procura -..., dezenove e vinte.
-Tcharans! - falei, fazendo uma cara incrivelmente inocente e o infame truque de retirar o dedo. Não sei como, mas até que funcionou, pois Cristina riu.
-Você é muito bobo.
-Acho que sim. Vamos embora. - eu não queria olhar de novo para aquela cena, embora eu ache que a ficha ainda não tivesse caído. Ou talvez fosse a responsabilidade de ter que cuidar de alguém que estivesse me mantendo são.
Fomos para a recepção e nos sentamos nas cadeiras, as mesmas que eu tinha sentado com Natália, o que parecia ter sido há uma eternidade inteira atrás.
E então tudo mudou. Estávamos novamente na sala nova, com uma recepcionista atrás do balcão e médicos e enfermeiras passando. Cristina voltou a chorar e eu fiquei quieto olhando para o chão. Ela continuou agarrada ao meu braço, e acho que como eu, ela tinha medo de que se nos separássemos, um ou outro ia sumir para sempre. Abracei-a forte, confortando aquela dor que anestesiava meu próprio sofrimento.
Ficamos assim por muito tempo, ou pelo menos foi o que pareceu, ignorando qualquer um que nos abordasse. Pensei quanto tempo mais nós teríamos que passar por isso, quanto tempo mais teríamos que sofrer todo aquele inferno.
Levantei a cabeça quando ouvi uma cama sendo arrastada, junto com os gritos de vários médicos. Olhei para o paciente na cama, e me assustei, porque ali estava deitado Bernardo, com os olhos fixos e arregalados, sendo levado para a sala de operações.
-Ber... - comecei a falar, mas enquanto olhava aquilo, me dei conta de que não adiantava, pois mesmo que ele estivesse vivo, sua alma já não estava mais ali dentro. Aqueles olhos me chocaram tanto quanto os de Helena e Bruno, talvez até mais, já que aquele era um corpo vivo e sem alma, diferente dos dois mortos, que era normal não a terem.
Apertei um pouco mais Cristina nos meus braços e mergulhei meu rosto nos cabelos dela. Eu não ia chorar enquanto ela estivesse aqui para soltar lágrimas suficientes para nós dois.
Quando levantei a cabeça estávamos de volta no prédio abandonado, cercados de poeira e medo. E ficamos assim, até que vi algo se mexer perto de uma das portas que davam acesso ao grande salão de recepção. A essa altura eu já estava bastante assustado, e não tive coragem para me levantar e ir ver o que era. Ia ser pior quando eu chegasse lá e encontrasse simplesmente um corredor e vários cômodos vazios. Mas então Eduardo entrou no meu campo de visão.
-Eduardo!
-Tiago?
-Sou eu! A Cristina está aqui comigo!
-Você... Vocês estão bem? Ai meu... Meu Deus! Isso é um... Um pesadelo... Você viu o banheiro? O Bruno e a Helena estão... Estão...
-Eu vi. - interrompi ele.
-Meu... Meu Deus...
-Calma, venha sentar aqui. - eu convidei, e ele caminhou lentamente, quase que hesitante, demorando o dobro de tempo normal para andar aquela distância e se sentou do meu lado.
-E os outros?
-Shh... - eu disse, e apontei para Cristina, que tinha dormido nos meus braços naquele meio tempo. - Fale baixo.
-Como ela pode dormir nessa situação?!
-Cansaço. Ela deve estar exausta, portanto já que ela conseguiu, vamos deixá-la descansar o máximo possível.
-Tá, mas e os outros?
-Você parece que já viu Helena e Bruno, então eu vou continuar das piores notícias para as não tão ruins. Bernardo parece que teve um ataque e foi levado pelos médicos...
-Que médicos?
-Você não passou por isso?
-O quê?
-É como se a gente voltasse no tempo, ou fosse para outra dimensão, e lá o hospital ainda funciona, aliás ele acabou de abrir.
-Pare de brincadeiras! Eu já estou assustado, não precisa piorar as coisas!
-É sério. - eu falei, e alguma coisa nos meus olhos não deixou que ele questionasse mais. Simplesmente acreditou.
-Ai meu Deus!
-Continuando, João desapareceu, mas ele estava bem da última vez que o vi, e Natália conseguiu sair para buscar ajuda.
-Ela o quê?
-Foi buscar ajuda.
-Por que eu não pensei nisso antes?
-Não adianta, as portas não abrem mais.
-Emperradas?
-Duvido. Eu acho que...
-Por favor não diga isso.
-O que?
-Seja lá o que for, não complete essa frase.
-Tá...
-E agora? Vamos até a porta?
-Não sei. Acho que sim. Cristina, acorda.
Tive que sacudi-la, um pouco até ela acordar, mas finalmente estávamos de pé e caminhando para a porta.
-Ei Cris, por que você está agarrada assim no Tiago? - perguntou Eduardo, o ser mundialmente famoso por soltar as frases erradas nos piores momentos.
Eu e Cristina ficamos sem jeito, e olhamos um para o outro. Nisso ela quase soltou meu braço, mas eu segurei o dela.
-Ela está com medo, deixe-a em paz, Eduardo. - eu disse num tom severo.
-Perdão. Eu só não sabia o que falar, e o silêncio estava me incomodando...
-Você podia ter falado de música! - sugeriu Cristina.
-Não tem clima pra começar uma conversa casual como essa...
-Acho que o único clima que tem agora é para contar histórias de terror, e eu já estou de saco cheio de terror, então esqueça o clima. - eu retruquei.
-Ah, bem, então alguém viu o filme que passou ontem na televisão?
-Eu vi. - respondeu Cristina - Era sobre os fantas...
-Eduardo, é melhor você ficar quieto, porque ainda não deu uma dentro...
Ele pareceu meio triste, mas logo se animou de novo e começou a andar na nossa frente, e consequentemente foi o primeiro a alcançar a porta. Girou a maçaneta e empurrou, e a porta se abriu.
-Voilá! E o Grande Dudu faz sua saída triunfal! - disse ele correndo para fora. Seguimos ele, sorriso nos rostos, felizes por ver uma luz no fim do túnel.
E então desabou. Um pedaço enorme de concreto de quase um palmo de grossura desmoronou, parte do que antes formava a marquise que protegia a entrada da chuva, certinho onde Eduardo estava. Voou sangue para todos os lados, e por pouco não fomos lavados de vermelho. Por sorte estávamos temporariamente protegidos pelo vidro da porta, que tomou o banho em nosso lugar.
Cris começou a berrar, histérica, e eu não sabia mais o que fazer. Será que devia nos arriscar e tentar sair? Ou era melhor voltar? Mas como nós íamos ficar ali dentro com ela naquele estado? Comigo naquele estado?
Na verdade eu ainda estava pensando isso, e nem me dei conta de que eu tinha segurado Cristina pelos ombros e a estava beijando.
Pára tudo. Eu gosto da Natália, não? Não? Alguém por favor me explica, porque eu não estou entendendo mais nada! Mas eu estava gostando daquele beijo, e não foi só por ele acalmar Cristina. Acho que essa noite mudou muita coisa dentro de mim. Dentro dela também.
De certa forma, agora eu sabia que tudo daria certo, que sairíamos dali. Juntos e salvos.
E então Cris tossiu, e eu senti o gosto do sangue que subiu pela garganta dela. Abri os olhos a tempo de vê-la desabar no chão.
Morta.
Não tive forças nem para gritar, pelo menos por um tempo. Simplesmente não acreditei. Depois de um tempo ali parado, esperando ela se mexer de novo, eu finalmente me dei conta de que aquilo não era mais uma das ilusões do hospital, era real, e eu chorei.
-Chega... Você ganhou... Eu desisto... - falava, com as mãos na cabeça, agarrando meus cabelos - Não ouviu? VOCÊ GANHOU!
Eu berrei por muito tempo, até não sair mais voz nenhuma das minhas cordas vocais, e depois continuei chorando em silêncio.
E quando minhas lágrimas pararam de sair, a porta se abriu.
Saí cambaleando, mal tinha forças para me manter de pé. Escorreguei no sangue de Eduardo e caí de cara no chão. Não sabia se o vermelho no meu rosto era do chão ou se saía do meu nariz que doía. Me levantei e continuei me arrastanto.
Passei por um buraco onde aparentemente o chão tinha cedido e caído em alguma galeria de esgoto ou águas pluviais, mas não dei atenção. Só desviei e continuei até o portão de entrada, que consegui abrir sem problemas. Estava livre.
Mas que sentido poderia ter essa liberdade agora que minha própria mente era minha prisão?
Eu estava finalmente na rua principal, fora do hospital, ouvindo o barulho dos motores dos carros e de suas buzinas.
Vi dois faróis altos na minha cara e ouvi pneus cantando. Foi a última coisa que meus sentidos cansados me transmitiram.
Não havia nem a dor.
Só a liberdade. Enfim, a liberdade.

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