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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Adrian e Anna - pt 6

No fim das contas era um hospital.
Eu estava internado em um estado um tanto grave, a ponto de ter corrido risco de vida. Os médicos dizem que eu estava envolvido em um acidente de tráfego, onde um motorista que dirigia em alta velocidade me atropelou e fugiu sem prestar socorro, mas acho que fui eu quem me jogou na frente do carro.
Difícil dizer quando eu não lembrava nada daquela noite.
E também não me importava muito com isso.
Não me importava muito com nada mais.
-Muito triste. - falou uma voz. Ela vinha de algum canto do quarto que eu não conseguia ver, pois meu pescoço estava imobilizado. Deveria ser de algum outro paciente que estava ali e eu nunca tinha notado.
-O quê? - respondi.
-Sua expressão. Triste demais para se mostrar no rosto de alguém tão jovem. - ele falou. Pela voz parecia ter pelo menos uns setenta anos. - O que aconteceu? Foi uma mulher?
-Não te interessa. - cortei o assunto, e os dois ficamos em silêncio.
Eu não ia dividir isso com ninguém, ainda mais um velho que nunca vi a cara e que não sei de que buraco saiu.
Mas os dias ali eram insuportavelmente longos, e eu não podia fazer muito mais do que olhar para o teto, o que ficou chato depois dos primeiros trinta segundos, e insuportável quando alcançou um minuto, a cada tentativa. Por isso aos poucos eu fui começando a conversar com ele.
-Qual o seu nome? - ele me perguntou.
-Adrian. - respondi ainda com uma voz de quem não quer assunto.
-Eu sou Osvaldo.
-Ninguém perguntou.
-Mas é deseducado não dizer seu próprio nome quando alguém se apresenta. - respondeu, sem parecer ofendido pelo meu tom. - Você parece ter uns vinte anos, certo?
-Errado. Você parece ter uns duzentos.
-Ahahahaha! Nem tanto, mas vou ficar feliz se chegar lá. No momento não sei nem se vou chegar aos oitenta! - falou ele alegre, como se comentasse a vida de outra pessoa e não a dele.
-Você não se importa de morrer?
-Acho que não muito. Eu quero viver, claro, mas o máximo que eu puder. Viver o máximo ultrapassando limites ficou na minha juventude, quando meu corpo ainda agüentava essas coisas. Só de pensar que naquela época eu fazia coisas que nem só de sonhar hoje em dia me deixariam mal... Ahahahahaha!
-É um jeito interessante de olhar para as coisas... Mas não muito fácil...
-Oho! Se a vida fosse fácil não teria graça nenhuma!
-Sei... - retruquei, e não sei porque fiquei emburrado. Talvez porque eu acreditasse que eu estivesse melhor morto. Era triste demais imaginar uma vida sem Anna...
Não conversamos mais naquele dia. Fiquei de olhos fechados lembrando dos poucos momentos que passei com ela, os únicos momentos em que eu tinha vivido de verdade.
E eu queria aquela sensação de novo.
Mas o dia passou lento e igual.
-Por que você não recebeu direito seus pais? - perguntou Osvaldo de novo à noite, pouco depois de meus pais saírem do quarto.
-Eu recebi direito...
-Faltou animação! Você tratou eles como se fossem qualquer um que vem te visitar...
-Eu... Eu... Não interessa meus problemas com minha família!
-Realmente, não interessa. Só queria entender, já que não tem muito o que fazer por aqui mesmo... - disse ele, dessa vez sem terminar a conversa quando me irritei. - Mudando de assunto, então, você gosta de futebol?
-Não.
-Ah, eu gostava... Joguei muito quando era novo. Mas nunca fui muito fã de assistir os jogos. Me animava mesmo para jogar.
-Eu não gosto de esportes.
-Pois devia, fazem muito bem para a saúde.
-Duvido que algum me impedisse de estar aqui.
-Acho que nem um trator te impediria de estar aqui! Ahahahahahaha! - falou, e me perguntei o que ele queria dizer, quando tudo que poderia saber era que eu tinha sido atropelado. - Você devia dar uma chance para o mundo, ele pode te mostrar cores que você achava que não existiam, sabe?
-Você com esse papo de novo...
-Certo, certo. Não quero ser o velhinho chato que enche o saco com lições de moral.
-Falando nisso você não fala muito como um velho...
-Acho que é a convivência. Eu sou um professor do ensino médio, sabia? Ou pelo menos costumava ser...
-Como que eu ia saber se você ainda não tinha falado?
-Ahahahahahaha! Boa essa! É verdade, não é como se você pudesse sair daí para pesquisar minha vida, não é?
-Mesmo que eu pudesse, seria a última coisa que eu faria...
-Ahahahahahahahaha! Oooooh!
-Que foi?
-Você estava sorrindo!
-Você pode me ver?
-Um pouco. Foi a primeira vez que eu te vi sorrindo.
-Eu não estava sorrindo.
-Ah, estava sim, eu posso ser velho mas não sou cego. - ele falou, e aposto que devia estar com um sorriso enorme no rosto.
E na verdade eu tinha mesmo sorrido. Pouco a pouco ele estava conseguindo me amolecer, por incrível que pareça. Claro que naquela hora eu não percebi isso.
E mais dias foram passando, pouco a pouco, conversa a conversa. Eu ouvia os médicos levando e trazendo a cama do velho diariamente para seu tratamento, embora eu não soubesse o que ele tinha. Talvez fosse algum tipo de fratura que ele precisasse de fisioterapia ou algo assim.
-Você sorri mais agora. - comentou ele semanas depois. - Mais ainda tem essa expressão triste no seu rosto.
-Você é mesmo insistente, não é? Não deu para notar da primeira vez que você tocou no assunto que eu não quero falar sobre isso?
-Deu. Mas acho que você vai se sentir melhor se falar, por isso vou continuar tentando.
-Incrível...
-E então? O que aconteceu?
-Foi uma mulher sim.
-Sabia. Elas podem fazer dos homens os seres mais felizes desse mundo, mas também os mais tristes...
-É mesmo, e eu sei disso mais do que ninguém... - e então contei tudo.
Mesmo aí eu ainda não tinha percebido o quanto ele tinha me mudado com sua gentileza, com sua perseverança, com sua paciência. Mas contei, e na hora nem pensei num motivo para isso. Simplesmente falei.
Falei como eu era e como detestava a minha vida. Como encontrei Anna e como a amei. Como nos separamos e como a reencontrei.
E também como meu mundo ruiu.
Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu narrava a minha história.
-Você te muita sorte. - ele falou quando eu terminei.
-Por que sorte?! - falei meio soluçando. - Como isso pode ser sorte?!
-Muitos morrem sem ter a chance de amar tão intensamente como você amou. Muitos morrem sem nem saber o que é um amor verdadeiro, e você com tão pouca idade encontrou isso. E agora você tem toda uma vida para lutar por isso. Quer sorte maior que essa?
Não consegui conversar mais naquela noite. Chorei e chorei até não conseguir mais abrir os olhos. E depois chorei mais ainda, enquanto adormecia.
-Eu queria ter te conhecido antes, Osvaldo. - lembro de sussurrar, pouco antes de cair no sono.
-Então você lembrava meu nome... Que bom. - ele falou com uma voz meio fraca, enquanto eu caía de vez no mundo da escuridão dos que dormem.
Na manhã seguinte ele foi levado bem cedo para fora do quarto.
Mas nunca mais voltou.

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