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sábado, 22 de maio de 2010

Adrian e Anna - pt5

Eu não vi a Anna pelos próximos quatro anos, embora não tenha passado um segundo sequer sem pensar nela. Pode parecer surreal, afinal, foi só uma noite. Mas essa única noite foi extremamente especial. Anna parecia preencher cada buraco no meu coração, cada ferida ali. Com ela o mundo parecia mais do que dor e solidão.
E não precisei de toda uma vida para notar isso. Dez horas foram suficientes.
Mesmo assim, eu deixei-a sair daquele jeito, sem dizer nada, sem nem olhar. Ainda não entendo por que eu reagi assim, por que meu corpo simplesmente permitiu que ela se fosse, sem nem ao menos tentar mantê-la por perto. Será que eu tive medo de que para ela tudo aquilo fosse nada, enquanto para mim era tudo?
Não importava mais. Agora tudo o que eu queria era ela ao meu lado.
Mas de que adiantaria eu segui-la? Ela havia saído pela porta por vontade própria. Por isso que por quatro anos eu não a vi.
No fim não passou de um acidente. Eu andava sem rumo, mais uma vez, quando ela passou por mim. Foi como nosso primeiro encontro, há tanto tempo. Eu a reconheci na hora. Ela também.
Ficamos nos olhando enquanto a multidão de pessoas passava a nossa volta, todos preocupados demais com seus problemas para notarem a gente.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas, que ela não deixava cair de jeito nenhum, por mais que turvasse sua visão. Eu nem sei o que acontecia comigo. Meu corpo não parecia mais meu, era como se ele se movesse de acordo com a vontade de outra pessoa, muito provavelmente a dela.
Primeiro um pé.
Depois o outro.
Caminhei em sua direção, e a única coisa no mundo agora era ela. Não precisava de mais nada.
-Você... - Eu comecei.
Então a primeira lágrima escorreu pelo olho dela. Primeiro no esquerdo, depois no direito.
-Eu... - tentei de novo.
Ela ficou me olhando enquanto eu levava meus dedos aos seus cabelos, e acariciava.
-Não... - Ela finalmente falou, quebrando meu mundo.
O que eu temia havia se tornado realidade.
Ela se virou e se foi.
Mas eu não vi isso, porque quem chorava agora era eu.


Eu não podia mais suportar isso.
Não podia ficar ao lado dele.
O amor era algo que não fazia parte da minha vida. Eu não merecia.
Percebi isso quando o encontrei na rua, há poucos instantes.
Ele era tudo o que sempre sonhei, e eu não era nada que ninguém poderia vir algum dia a sonhar. Eu era pior que isso.
Logo ele me esqueceria, como aconteceria normalmente, se não tivéssemos nos encontrado. Assim seria melhor.
A cada dia nesses quatro anos eu não tinha conseguido parar de pensar nele, e tinha me afogado em qualquer coisa que me tirasse dessa situação. Qualquer coisa que tirasse minha mente do meu corpo, que me fizesse esquecer, pelo menor momento que fosse. E quando nada disso funcionava, eu me limitava a chorar. Até que meus olhos ardessem tanto que não saíssem mais lágrimas.
Foram anos torturantes, e em alguns momentos eu até desejei nunca tê-lo conhecido. Em outros desejei que estivesse ao meu lado, me acariciando como fizera ainda há pouco, como se eu fosse a existência mais preciosa desse mundo.
Eu adorava, mas a cada vez que ele fazia isso, uma parte de mim morria, e se tornava uma parte dele. E eu já me sentia mais dele do que de mim mesma.
Não podia fazer isso. Não com ele.


Eu caí no chão e ali fiquei, no meio da multidão que para mim não parecia mais existir. O mundo não existia mais, e eu não era mais do que a existência personificada da dor. Era eu, envolto na escuridão e na desesperança.
E nada mais.
Meus joelhos ardiam como se estivessem pegando fogo, meus punhos que esmurravam o chão estavam esfolados e sangrando, mas a dor física simplesmente parecia ser algo tão distante, como se fosse fora do meu corpo.
Chorava como nunca havia visto alguém fazê-lo.
O desespero era grande demais.
Algumas pessoas se aproximavam, mas eu apenas as espantava. Com o tempo eu levantei e fui embora, sem enxergar nada. Eu queria sumir desse mundo que não sentiria minha falta. Sumir para sempre, para um lugar onde a dor e a solidão fossem não mais que uma lembrança ruim.
Naquela noite, eu não sei se cheguei em casa ou não.
Não sei o que fiz, nem se fizeram algo comigo.
Mas eu acordei sob um teto desconhecido.

Um comentário:

  1. acho que agora vc está ficando mais inspirado nao sei o pq.........
    abrço lek

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