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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Fim

Eu também estava com medo.
No início o mundo inteiro vibrou com essa nova descoberta.
Pretendo contar como tudo aconteceu. Vou começar pelo começo, claro, mesmo que todos nesse mundo tenham vivido essa história e já saibam de tudo até o presente momento, acho que já ficou mais do que provado que não estamos sozinhos.
Vou começar pelo começo, um início talvez, empolgante.

27/01/2008 – Mato Grosso – 01:46 a.m.
-Cubra tudo, ninguém deve ver isso. Leve todos os estrangeiros para Centro, e os que tiveram contato para a Quarentena. Eu quero essa porra de metal ou o que quer que seja fora daqui antes que qualquer pássaro comece a pensar em cantar! – disse um homem que parecia estar no comando.
-Sim, Senhor! – respondeu o outro batendo continência.
Então a imagem em infravermelho virou e focalizou um grande campo todo cercado de militares e uma cratera com uma sombra enorme no meio, e alguns focos de incêndio ao redor.
-EI, VOCÊ! – berrou uma voz atrás. – VOCÊ! DÊ-ME ISSO!
Estática.
Assim que o vídeo acabou, eu e meus amigos ficamos de boca aberta em frente ao computador. Virei-me e olhei pela janela do meu quarto e vi o tráfego da Av. Roberto Silveira, em Niterói.
-Uau, - disse um dos meus amigos, o Leonardo. – Uau!
-Vocês acham que isso é de verdade? – perguntou o outro, Alberto, ainda vidrado na página do Youtube, como se algo mais fosse saltar dela.
-Não sei, - respondi. – pode tanto ser como não. Esse vídeo está ficando cada vez mais popular na internet, e a administração do site já o retirou do ar inúmeras vezes. O uploader original teve todas as contas que criou bloqueadas logo após postar o vídeo e até o IP dele está atualmente proibido de enviar qualquer coisa para o acervo do site. Se não forem simples boatos, não tem como não ser real.
-Mas ainda depende de não serem boatos. – disse Alberto.
-Sim, depende... – e olhei de novo pra fora da janela, dessa vez pro céu cinza que prometia chuva, e talvez escondesse algo por trás.
Já tinha um mês desde que aquela gravação começou a aparecer na internet, e estava ficando cada vez mais popular. Ela datava de vinte e sete de janeiro de dois mil e oito, o que era algum tempo atrás, pois em algumas horas começaria o ano de dois mil e nove.
Mas era só mais um vídeo na internet, por isso em pouco tempo foi esquecido.
Até meados do ano seguinte, quando ele reapareceu, dessa vez em um comunicado especial do Presidente da República.
-Companheiros, boa noite. Hoje, o Brasil pode anunciar a vocês e ao mundo a maior descoberta de toda a história. Nós fizemos contato com vida extraterrestre. Observem esse vídeo que até um tempo atrás foi um sucesso na internet. Ele mostra nosso primeiro contato com um objeto caído em nosso território, abatido por uma de nossas unidades que trabalhavam para impedir o tráfico de tóxicos. Infelizmente, companheiros, todos os tripulantes dessa nave morreram com a queda e o contato com nossa atmosfera. Esses corpos foram levados para análise, e agora estão guardados sob segurança máxima pelo exército. Mas mês passado, companheiros, nosso centro de pesquisas espaciais conseguiu decodificar uma mensagem que claramente foi enviada por uma raça inteligente, reivindicando os corpos do acidente. Companheiros, é com muito orgulho que nós, brasileiros, receberemos os primeiros visitantes de fora do planeta!
E assim o clima do país foi todo de comemoração, uma algazarra que não se via nem em época de Copa do Mundo. Todos estavam animados com o anúncio, todos acreditavam que seria algo maravilhoso. Mas nós já devíamos ter aprendido com nós mesmos que qualquer ser que consiga pensar tanto quanto ou mais que nós seria pelo menos parecido conosco, e nós, seres humanos, só sabíamos interagir com outras culturas de um modo: através da negação e destruição. Negávamos que qualquer um diferente de nós fosse alguém com os mesmos direitos, e por medo, o destruíamos.
Esse era o ser humano, e esses eram aqueles que vinham até nós.
Mas a euforia era tanta que só notamos quando era tarde demais.
Eles chegaram sem que notássemos, e se instalaram. Não eram muitos, não precisavam de números. Não precisaram de muita coisa. Tinham uma desculpa para suas consciências, e todo o poder necessário para lidar conosco.
E nós nem notamos quando tudo começou, só quando terminou.
Foi perto do fim de dois mil e dez, quando todos os meios de comunicação do mundo gritaram uma única mensagem: “Nós somos passado.”
A ordem agora era tentar se salvar. Mas correr para onde?
Nós tínhamos vinte e quatro horas, duas das quais eu gastei lhes contando essa história. Agora que chegamos no presente, não sei se consigo transmitir o que vejo. Todo o desespero nos olhos das pessoas, a tristeza, o arrependimento! Por mais que sejam sentimentos que nós já tenhamos visto, nada se compara com a intensidade do que eu via agora. Tudo o que eu quero é encontrar meu pai, minha mãe e minha irmã mais uma vez, mas não acho que vou conseguir. Tento acreditar que tudo vai dar certo, mas ainda tenho que andar muito até lá, e a cada minuto, estamos mais próximos do fim.
É estranho o que passa na cabeça da gente nessas horas, não? Agora que não posso fazer mais nada do que andar, andar e pensar, eu me lembro de todas as coisas que não fiz pensando no futuro, ou as que fiz a contragosto, para conseguir algo melhor em certo prazo de tempo! Tudo uma piada, porque agora não existe mais amanhã! Dezoito anos haviam sido jogados no lixo, porque eu vivi em prol do amanhã.
Do que adiantava eu me arrepender agora? Não tinha mais tempo.
Não havia nada para consertar, porque logo não haveria nada errado.
Nem certo.
Não existiria nada.
Nada.
Eu vou terminar por aqui. Para os que estão realmente preocupados comigo, posso dizer que consegui encontrar meus parentes uma última vez, mas não devo descrever o fim, porque o fim é indescritível. Só se sabe como é o fim, quando o fim chega.
Primeiro veio a destruição, e isso não se precisa contar, destruição é destruição, e leva ao fim. O fim, bem, no fim vocês saberão com é.

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