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domingo, 22 de novembro de 2009

Escola - Amor e Amizade

Antes de começar, uma sugestão de música que achei que combina um pouco com a história, por isso vou deixá-la aqui como sugestão para ouvirem enquanto leem!


Claro que também recomendo, gostam ou não de animes, que vejam Clannad (o anime onde essa música aparece originalmente). É uma obra prima.


Acho que aquela foi a melhor época da minha vida, e também uma das mais tristes. Quem, depois de velho, não se lembra com ternura dos seus dias de escola? Se vocês não se sentem assim, então eu sou um sortudo, porque eu olho para trás, há mais de cinqüenta anos, e sinto tantas saudades!
Eram tempos de amizade, amor e lágrimas. Foi na escola que conheci meu melhor amigo que me ajuda até hoje, Carlos. Ele era uma pessoa e tanto, sempre animado, disposto a ajudar a todos, gentil, honesto e sincero. Talvez eu não merecesse um amigo tão bom. Nunca tive coragem de contar para ele o que aconteceu depois que ele mudou de escola, na passagem pro Ensino Médio.
Porque eu me apaixonei pela dona de seu coração.
Seu nome era Flávia. Era uma menina linda, alegre, divertida e com quem um amigo sempre pode contar. Onde ela ia, pelo menos enquanto lá permanecesse, sentimento ruim algum poderia pairar. Ela tinha sido feita para o Carlos! E eu realmente acreditava que o melhor era juntá-los, coisa que tentei fazer durantes os últimos três anos do Ensino Fundamental. Mas Carlos tinha muita pouca confiança em si mesmo, e por isso chegou a hora de ele ir embora e não teve coragem de se declarar. O tanto que eu tinha me aproximado dela nos últimos tempos parecia inútil agora. Como eu ia imaginar que algum dia eu iria amar a garota que meu melhor amigo gostava?
Mas o primeiro ano do Ensino Médio chegou, e eu estava sozinho no meio de cinqüenta pessoas. Não havia ninguém com quem eu realmente queria estar, e ao que parecia, ninguém que realmente quisesse estar comigo. Pode parecer deprimente, mas é assim que as escolas funcionam. Quando uma turma é formada, também se formam os grupos internos. Se por algum motivo você acabar sem o seu, conseguir um novo pode beirar o impossível. Felizmente eu consegui me enturmar.
E assim me distanciei um pouco de Flávia. Não foi de propósito, eu só não via mais um motivo em estar perto dela, e mesmo que gostasse de sua companhia, as amigas dela me deixavam desconfortável.
Até que chegou a época de preparar o festival escolar.
Nem sempre se pode prever o rumo das coisas, e se eu pudesse, eu teria evitado vários acontecimentos na minha vida. Um exemplo foi a vez em que eu acabei ficando até tarde decorando a sala de aula, onde faríamos nossa apresentação, sem perceber que conforme as pessoas iam embora, só sobramos eu e a Flávia. Nós conversamos normalmente, como sempre, mas aos poucos eu comecei a ficar pouco à vontade, até me pegar olhando para ela.
E depois disso eu pensava nela o dia todo. A observava durante a aula, imaginava o que estaria fazendo durante a tarde, e sonhava com ela de noite. O pior foi que aos poucos eu notei que ela também começou a me olhar mais. Mas ainda não imaginava o que vinha no futuro. Sim, eu era extremamente infantil nos meus quatorze anos, pelo menos nos assuntos do coração. Mesmo assim até o mais idiota dos idiotas nota isso, cedo ou tarde. Eu notei, porque ele não?
O mundo parecia vivo quando ela sorria, e uma terrível prisão toda vez que chorava. Estar com ela, compartilhar um tempo juntos, por mais banal que fosse o motivo, simplesmente me fazia extremamente feliz. Ela era linda. Claro, se você nunca se apaixonou, com certeza procurará entender o por que de tudo isso, tentará ver o que existia por trás da Flávia que descrevi. Mas aqueles que já amaram, ou que amam, saberão que, não tem como explicar algo como esse sentimento. Eu simplesmente a amava, e não via como outra pessoa poderia não amá-la também.
Foi mais ou menos no início do segundo ano que me dei conta de que o que eu realmente sentia era amor.
Fiquei com medo. Carlos era meu melhor amigo, e ele amava Flávia. Tudo que eu precisava fazer era ficar de fora e fazer com que as coisas funcionassem entre os dois, então por que eu tinha me apaixonado? Como eu podia, assim por instinto, trair o meu melhor amigo?
Mas não adiantava. Por mais que eu pensasse, o coração nunca ouve o cérebro. Tudo que eu podia fazer era ficar quieto. Trancar fundo aquilo e sofrer em prol de algo que eu valorizava mais do que aquele amor, e eu tinha certeza que logo passaria.
Ao invés dele os meses passaram, e já estávamos na metade do terceiro ano do Ensino Médio.
E eu ainda sofria.
Sozinho.
Então veio uma das situações mais dolorosas da minha vida:
-Tiago, eu gosto de você. - disse Flávia, depois de me chamar depois da aula. Claro que ela não falou com essa clareza, ela estava muito nervosa e gaguejou um bocado. Seu rosto pequeno estava vermelho, como se todo o sangue do corpo estivesse concentrado ali, e não duvido que eu estivesse tão envergonhado quanto ela, acho que eu estava pior ainda. Todo meu corpo parecia que ia explodir. Será que o homem é um ser tão racional quanto aqueles vários filósofos nos fazem pensar? Digo, na maior parte das vezes simplesmente nos rendemos às nossas emoções, porque nossa razão simplesmente não pode controlá-las.
Tudo em mim me empurrou para dizer sim.
-Desculpe... - menos a minha mente, é claro. - Eu não posso te corresponder...
Ela chorou naquele dia, e também nos próximos. Eu não podia fazer nada além de olhar com culpa, pois tinha sido eu quem tinha ganhado aquele pequeno e frágil coraçãozinho, e o tinha esmagado. Ela não morreria por causa disso, senão jamais teria feito, mas aquilo deixaria uma cicatriz, que talvez nem o tempo curasse totalmente.
E os dias passaram. Eu ainda me torturava tentando descobrir se não havia um jeito de nenhum de nós três sairmos machucados. Se alguém tivesse que se ferir, que fosse eu.
Mas não era o que estava acontecendo. Flávia estava sentindo uma forte dor no peito, e era por minha causa. Seu rosto raramente mostrava o sorriso que eu tanto gostava de ver, que curava qualquer ferida que meu coração tivesse. Agora tudo que eu conseguia olhando para ela era sentir mais e mais dor.
A vida realmente não era fácil. Eu não podia ter tudo o que eu queria. O problema era a escolha, claro. Eu não queria perguntar para o Carlos, porque ele jamais me diria que eu não devia namorar a Flávia, mesmo que ainda gostasse dela, entretanto queria tanto alguém que me dissesse que aquilo não estava errado! Que me garantisse que eu não estava traindo meu único e melhor amigo! Mas acho que a única pessoa que poderia me dizer isso era o próprio Carlos. Eu nunca ia acreditar se outra pessoa dissesse.
E veio assim o último dia de aula, e ele passou. Nesse dia eu olhei fundo nos olhos da Flávia, pelo que pareceu muito tempo, e vi ali uma lágrima contida por trás do sorriso. Como doía!
E mesmo assim eu a deixei ir.
Agora eu só precisava agüentar por mais pouco tempo. Só até o fim da festa de formatura, que seria na semana seguinte. Me perguntei o que ela usaria para a festa... Seria possível que ela ficasse ainda mais linda? Claro que sim, não sei nem por que eu ainda pergunto isso.
E então tudo mudou.
Eu conversava com o Carlos na véspera da festa, quando descobri que ele depois de três anos, tinha esquecido a Flávia e agora estava “de olho” em uma garota da sala dele. Não duvido que ele realmente amasse a Flávia, talvez mais até do que eu, mas o tempo, como dizem parece ser o remédio para um coração partido, e tinha agido bem no do Carlos. Ele tinha conseguido, não esquecê-la, mas transformar os momentos com ela numa boa memória, e continuar a vida. Finalmente estava livre!
Um peso saiu do meu coração. Agora... A festa! Ela tinha mudado de meu último teste para minha última esperança tão rápido! Mas será que eu tinha algum direito de pedir que ela aceitasse meus sentimentos depois de tudo o que eu a tinha feito passar? Acho que não...
E veio a festa.
Realmente ela estava linda. Mais do que eu poderia ter imaginado. Mas eu não podia fazer mais do que olhar. Eu tinha feito uma escolha quando a rejeitei, e não havia volta.
A noite foi embora e logo veio a aurora. As pessoas começaram a ir embora, enquanto eu ficava ali parado, observando pela última vez tamanha beleza.
E então ela foi embora. Passou pela porta de entrada, enquanto eu me ficava ali.
Pra mim parecia que não tinha mais ninguém em toda a vizinhança, em todo o mundo!
E eu simplesmente não conseguia ficar mais ali parado. Levantei e corri atrás dela. Corri como se eu não tivesse ficado acordado a noite toda. Não me importava mais com o quão egoísta eu estava sendo, eu só queria que as coisas não acabassem assim, antes mesmo de terem começado. Eu só queria uma chance de refazer direito aquele meu erro.
Cheguei na rua e vi a figura pequena da Flávia, bem longe, quase no fim da rua.
Não pensei em persegui-la. Simplesmente gritei o mais alto que pude:
-EU TE AMO!!! EU TE AMO!!!
Lágrimas corriam pelo meu rosto, como se meus olhos fossem algum tipo de chafariz defeituoso. Eu repeti a frase mais algumas vezes, e por um momento achei que ela tinha olhado para trás, mas ou foi impressão minha, ou eu realmente não merecia uma segunda chance, porque ela não parou nem se virou, simplesmente andou até sumir de vista.
Para sempre.

Um comentário:

  1. Eu já falei pra você que esse conto é muito triste?
    Mas é bonitinho :D
    ;*

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