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terça-feira, 3 de março de 2015

E o cantinho?

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O cantinho não morreu! Não ainda, pelo menos.
Na verdade, o Cantinho acaba de se renovar! Depois de muito (pouco) pensar, decidi levá-lo comigo para o Wordpress, já que tenho usado muito mais do que o blogger, e sinceramente, também por estar atendendo muito mais minhas expectativas do que essa plataforma.

Espero poder ver lá todo o público que não vejo aqui!
Se alguém ler isso, clique no link e junte-se a mim no novo cantinho: cantinhodohell.wordpress.com!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

No Corredor

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Um pequeno conto que escrevi hoje mais cedo, para dar uma movimentada aqui no cantinho.



                Apertei o botão metálico à minha frente , um de um par de gêmeos indênticos, e me pus a aguardar.
                Olhei para os lados e observei o corredor todo pintado cor de creme escuro, iluminado com lâmpadas de luz branca postas em intervalos aparentemente regulares. Ao chão, um rodapé de madeira lustrada e um piso de pedra amarelada cortada quase à largura completa de parede a parede, contornados por molduras de granito delimitando quadrado após quadrado por toda sua extensão.
                Não era um lugar feio e o quê de antigo adicionava um chame extra ao interior do prédio. As portas de madeira pintadas de branco só reforçavam a sensação de que eu estava de volta no tempo até uma época saudosa e bela que só conhecia através dos muitos livros que li.
                O visor do celular na minha mão acendeu-se em resposta ao botão pressionado em seu teclado e vi que já divagava ali por quase dez minutos. Fiquei surpreso pelo tempo ter passado tão rápido, mas ao mesmo tempo não pude deixar de indagar quanto mais teria que esperar.
                Diante da ausência de qualquer reação à minha frente, deixei a mente voar livre novamente. Pensei nos problemas econômicos e no tabuleiro novo do jogo que eu queria comprar, na fome na África e no que comeria no jantar. Pensei em como aquele corredor parecia tanto cenário de um conto de terror.
                Quase podia ver o corpo incorpóreo, pálido como uma folha de papel vegetal, deslizando suavemente em minha direção. Os cabelos esvoaçantes levantados por algum vento espectral que nenhum mortal poderia sentir naquele interior sem janelas eram negros como as algas no fundo abissal dos oceanos. Suas vestes não mais do que uma malha mortuária branca, ou talvez um lindo vestido estimado por sua dona, mas tão deteriorado pelos vermes e microorganismos que já não passava de trapos puídos e feios. As mãos esqueléticas pareciam feitas apenas de osso e pele, como se as larvas brancas em seu caixão só tivessem comido sua carne, com cuidado para não rasgar-lhe a pele sedosa que tantos homens desejaram tocar quando ainda estava rosada pelo sangue quente correndo dentro das veias e artérias.
                E seu rosto, ah, seu rosto! Uma caveira aterradora com dois buracos negros no lugar dos lindos olhos que com certeza teve, e sem qualquer sinal dos seus grandes e brilhantes cílios. Os lábios, antes finos e rosados em um leve contraste com a alvidez da pele, agora estavam comidos, revelando um interminável sorriso macabro como se a própria morte não fosse mais do que uma piada maligna.
                Não tinha unhas nem sapatos. Também não precisava deles, pois seus pés finos de moça mal tocavam o chão.
                Pensei, pelo jeito que se balançava em minha direção, que talvez tivesse morrido enforcada, mergulhada no pesar de uma paixão trágica, quem sabe amando perdidamente o único homem no mundo que não largaria tudo para estar ao seu lado.
                Talvez...

                Por fim o barulho da campainha chegou aos meus ouvidos, trazendo-me de volta à realidade. O corredor estava mais uma vez vazio e eu entrei no elevador para descer ao térreo e seguir em direção ao meu destino.

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Cidade - pt3

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 Antes que eu pudesse reagir de qualquer forma, as esferas brancas se fecharam e ela se virou. A silhueta escurecida pelo forte brilho do sol diminuiu enquanto descia as escadas e se afastava, até desaparecer de vista e me deixar sozinho com o cadáver sagrado que dividia o altar comigo.
 Olhei novamente para a figura no palco, fruto daquilo que com certeza havia sido um show de horrores. Era macabra a exatidão com que aquilo parecia reproduzir o sacrifício na cruz, um tipo de alegoria sinistra e desfigurada.
 Quanto mais eu olhava para a imagem, mais sua presença crescia no ambiente, me pressionando contra mim mesmo, esmagando e tirando meu ar. Ela ocupava cada canto da Igreja e enquanto eu me virava para fugir dela, senti que continuava atrás de mim, sempre grande e ameaçadora.
 O corredor central pareceu duas vezes maior do que quando o percorri na entrada. Com passos largos e frequentes olhadas por cima do ombro, percorri assustado as fileiras de bancos de madeira escura com suas abas desgastadas, acopladas atrás para os fiéis se ajoelharem.
 O ar estava pesado e espesso. Era difícil puxar o suficiente para encher os pulmões e por um pequeno momento me lembrei dos olhos fora do carro. Eles também pareciam roubar todo o oxigênio da atmosfera e deixar apenas o medo gasoso que penetrava cada poro de minha pele.
 Olhei uma última vez para trás, antes de cruzar o grande portal que levava para fora. Tudo continuava no mesmo lugar que quando entrei e mesmo que nenhuma das estátuas tivesse olhos, todas pareciam me encarar fixamente. Virei e desci as escadas, voltando para a vida da rua e o barulho que parecia não se atrever a entrar naquele templo, respeitoso à solenidade do local. Pouco tempo havia e passado desde que entrei, em torno de dez minutos, embora tivesse parecido mais. Olhei para os lados, ainda um pouco ofuscado pela claridade da manhã.
 Não me restava outra opção senão voltar para o hotel. Depois daquilo, não me sentia confortável para fazer turismo por aquela cidade. Meu estômago nunca foi fraco, muito pelo contrário. Nos anos em que exerci a advocacia, diversas vezes me vi de frente com cadáveres, algumas no Instituto Médico Legal, outras ainda no próprio local do crime. E, no entanto, aquele havia impactado de uma forma que nenhum dos outros tinha conseguido. Selvagem e ainda assim civilizado, um símbolo e um homem ao mesmo tempo. Era totalmente diferente dos crimes por interesses ou por paixões.
 Enquanto andava, meio concentrado em não me perder e meio distraído com a imagem que não fugia da minha mente, finalmente me vi diante da fachada do Hotel Bartimeu mais uma vez.
 Subi para o quarto e abri a porta cuidadosamente para não acordar Abraão, que, para a minha surpresa, não estava lá deitado na cama. Era cedo demais para ele ter acordado, por isso supus que tivesse ido ao banheiro.
 Sentei-me na minha cama e inspirei fundo. A janela aberta deixou entrar um pouco de um vento refrescante que me fez perceber, só então, como as coisas estavam fora de lugar. Eu não tinha aberto a janela quando saí e o par de sapatos que deveria estar arrumado atrás da porta não estava lá.
 “Abraão?”, chamei em voz alta, enquanto me levantava e andava rápido até a porta fechada do banheiro. Não houve resposta. Bati com o nó dos meus dedos sonoramente na madeira que dividia os dois cômodos, mas ainda não ouvi qualquer reação vinda lá de dentro.
 “Eu vou abrir a porta, hein.”, eu disse, esperando que, por mais sonolento que ele estivesse, com isso pelo menos desse sinal de sua presença, mais ainda assim não veio nenhum. Girei a maçaneta e empurrei, encontrando um banheiro escuro e vazio. Deixei a porta como estava e saí do quarto, descendo as escadas até a recepção.
 “Alô. Oi. Bom dia!”, eu chamei, tentando atrair a atenção da moça que trabalhava ali. Quando finalmente consegui, perguntei. “Meu amigo parece ter saído. Ele falou alguma coisa quando passou por aqui? Nós estamos no quarto 203.”
 “Quarto 203? Deixe-me ver aqui...”, ela falou, e começou a mexer em alguns papéis por trás do balcão. Eventualmente pareceu encontrar o que procurava e se levantou. “Aqui está, ele deixou um recado quando saiu.”
 Peguei o papel com ela e li. Era um bilhete simples, sem muito escrito, algo que ele rabiscou rápidamente enquanto saía. Nele ele dizia que tinha ido para a biblioteca começar a pesquisa bibliográfica.
 Ainda surpreso por causa da saída inesperada de Abraão, decidi ir atrás dele na biblioteca, mas antes subi para o quarto para colocar de volta o sapato que eu tinha trocado por chinelos assim que tinha voltado da caminhada matinal à Igreja.
 Peguei as direções para chegar aonde queria com a moça da recepção e fui. O sol estava mais alto no céu, mas não estava tão quente. Nem parecia o mesmo país que eu me lembrava de viver em. No fim das contas os gigantes de concreto que eram as cidades grandes faziam mesmo uma grande diferença. Nessas horas dava até vontade de me mudar para uma cidadezinha pequena como essa.
 Mas não essa, com certeza. Tinha algo de errado nela, algo de muito errado, e quanto antes a gente fosse embora, melhor. O problema era deles se queriam praticar esses ditos atos religiosos, um tanto excêntricos, e eu não queria ter nada a ver com isso.
 Não foi difícil de encontrar o lugar. A construção ocupava todo um bloco e parecia ser bem antiga, mas habilmente conservada, bem maior do que se esperaria de uma cidadezinha como aquela, com certeza. Na verdade a coleção de livros ocupava apenas uma parte do prédio, no térreo, e no andar de cima ficava a prefeitura.
 A bem da verdade era uma biblioteca que não perdia em nada para muitas daquelas das grandes cidades. As estantes ocupavam quase todo o espaço, grandes e imponentes, de madeira clara, com aproximadamente dois metros de altura e muito mais do que eu conseguia precisar de largura. Cada uma ia de um lado ao outro do salão, formando enormes corredores paralelos. Ao fundo, uma pequena porta, também de madeira, levava ao que uma placa indicava ser a sala de restauração.
 O teto ia até muito acima da minha cabeça, branco, e dele pendiam grandes luminárias douradas. As paredes seguiam pintadas com a mesma cor, com detalhes em gesso e as janelas eram enormes retângulos, começando a aproximadamente um metro do chão e subindo até quase alcançar o topo da construção.
 Na lateral, sobre todo o carpete vermelho escuro que cobria o salão, estava o gabinete do bibliotecário seguido por pequenas mesas quadradas, com cadeiras sem acolchoamento, onde em uma delas encontrei Abraão sentado. À sua frente, duas pilhas com grandes volumes encadernados quase tornavam impossível detectá-lo de muito distante.
 “Não esperava vê-lo de pé tão cedo assim.”, falei enquanto puxava uma cadeira.
 “Oi?”, ele perguntou, enquanto levantava a cabeça. Estava tão absorto na leitura que mal percebeu que alguém havia chegado e estava falando com ele.
 “Você. Desde quando acorda tão cedo assim?”, perguntei.
 “Ah, sim. Acabei me acostumando depois que Duda nasceu. Ela parecia um despertador, chorava todo dia às cinco da manhã.”, ele respondeu, esfregando o olho direito com o dedo para afastar parte do sono que ainda restava. “Não que eu não goste mais de dormir, mas achei que seria um desperdício fazê-lo quando poderia aproveitar o tempo de uma forma tão melhor. Quando foi mesmo que você chegou aqui?”
 “Exatamente agora.”, falei, e não disse mais nada, dando a oportunidade que sabia que ele esperava para voltar a mergulhar profundamente na leitura.
 Fiquei quieto ali por um tempo, olhando para os livros em cima da mesa, enquanto pensava em coisas aleatórias, mas logo um chamou a minha atenção e peguei para dar uma olhada. O título não era grande coisa, só algo sobre a história e cultura de Ponta dos Observadores. A capa que fazia todo o trabalho.
 Indescritível a sensação que aquela pintura passava, era chocante que pudesse ser tão bem feita e também tão estranha. Ela retratava um indígena deitado na praia, com seus braços abertos estirados na areia e, o que mais se sobressaía, dois buracos negros no lugar dos olhos.
 Logo em uma das primeiras páginas, achei uma nota do autor em que ele explicava seu fascínio pelas tradições indígenas locais e que havia nascido e sido criado ali. Por fim ele agradecia ao artista, um tal de Pedro Roomerus, que havia retratado com tanta precisão e beleza o ritual funerário local.
 Por um momento fiquei ali encarando o papel, processando as informações, mas não tardei a correr pelo índice e abrir no capítulo sobre a religião e suas cerimônias.  
 Ele começava falando sobre as festividades, como a de colheita e a que comemorava o meio do verão. Também havia rituais de passagem para a maioridade para ambos os sexos e sacrifícios para os deuses. Por fim, como que seguindo a ordem natural da vida, ele chegava ao ritual de entrega do espírito das pessoas às divindades. A morte.

 Nem sempre tudo começava com um simples falecimento. A Morte era parte do panteão local e como todos os deuses, recebia sua parte dos sacrifícios. No entanto, era um dos mais cruéis de todos os seres supremos, implacável e por isso exigia que suas oferendas fossem sempre vidas humanas. Quando dadas de bom grado, deixariam o algoz supremo satisfeito e, portanto, ele não voltaria rápido para buscar saciedade.
 Embora fossem situações diferentes, o ritual seguia o mesmo roteiro, onde tudo começava com o preparo do corpo, que devia ser rápido. A Morte não esperava a comodidade ou o luto dos humanos e começaria a recolher aos pouquinhos o corpo do falecido e este estaria eternamente amaldiçoado se não estivesse no local sagrado quando isso acontecesse.
 Portanto, o corpo era lavado e levado ao sacerdote para que seus olhos fossem retirados. Ninguém deveria ver a Morte, nem mesmo os mortos. Depois disso, novamente o corpo era limpo e finalmente levado à praia, onde era posto de frente para o mar, com os braços abertos numa forma semelhante à de um homem crucificado, com as órbitas vazias abertas.
 Não era um funeral elaborado nem complexo. O corpo simplesmente era carregado e deixado na praia sem os olhos, mas durante todo o caminho, enquanto dois homens escolhidos carregavam o morto, o sacerdote entoava os cantos que acreditavam dizer à Morte que estavam prontos para entregar-lhe o que era dela.
 À família só era permitido participar nos casos de sacrifícios, para demonstrar a boa vontade do povo. No falecimento, temia-se que o luto atiçasse a ira da divindade mais do que poderia ser benéfica a presença.
 Era interessante, ressaltava o autor, como não havia quaisquer diferenças no ritual, independente de quem fosse o morto. Mesmo os sacerdotes e líderes eram igualmente entregues à Morte, sem que nada mais pudesse identificar suas posições de destaque na sociedade além das memórias deixadas com o povo.
 Quando finalmente levantei a cabeça, encontrei Abraão me olhando. Não entendi direito o que poderia tê-lo distraído e por isso olhei ao meu redor, mas não encontrei nada.
 “O que foi?”, perguntei.
 “Não sabia que você gostava tanto assim de história.”, ele respondeu.
 “Com certeza não chego aos seus pés, mas gosto um pouco.”, comentei.
 “Certo. Você já terminou com o livro?”, ele falou e percebi que aquele era o ponto. Ele estava precisando do livro, mas eu estava tão absorto na leitura que não quis me atrapalhar e por isso ficou esperando.
 “Ah, desculpa! Aqui, toma.”, eu disse, entregando o livro.
 Depois disso, passei o dia inteiro lendo um romance que peguei em uma das prateleiras, sobre um garoto à deriva no oceano com um tigre de bengala, que no fim das contas se revelou uma leitura extremamente agradável.
Fiz uma pausa para o almoço, sozinho, e quando voltei Abraão continuava imóvel na cadeira. Peguei de volta o livro do tigre e continuei de onde tinha parado. Uma pena não ter conseguido terminar de lê-lo no mesmo dia.
 Foi em torno das dezessete horas, o bibliotecário finalmente se levantou, pela primeira vez desde que eu tinha chegado, e caminhou até a nossa mesa. Reparei que éramos os únicos restantes em todo o salão. Conforme se aproximava, reparei em como ele parecia destoar do local com sua calça jeans desbotada e uma camisa simples, preta, sem quaisquer estampas.
 “Vão embora, a biblioteca está fechando.”, ele falou quando chegou perto, com uma cara de desagrado.
 “Como?”, retruquei, sobressaltado com aquilo. “Ainda são quatro da tarde!”
 “Em Roma ajam como os romanos. Agora vão embora.”, ele respondeu, e se abaixou para pegar a pilha de livros de Abraão, deixando sua brilhante careca exposta.
 “Espera, espera!”, interviu de repente Abraão. “O que está havendo?”
 O bibliotecário, que alias o crachá no peito indicava se chamar Maurício Gonzales, levantou a cabeça ligeiramente, com uma cara que dava a impressão que o simples fato de estarmos ali já irritava demais, quanto mais fazendo perguntas idiotas
como aquelas. Claro que ele não conhecia o traça de livros que nem e por isso não sabia que ele realmente não tinha escutado nem uma palavra do que havia sido dito.
 “Hora. De. Ir. Embora.”, ele repetiu, pausadamente e raivosamente. “A biblioteca está fechada.”
 “Ah, mas que coisa... Fecha tão cedo!”, Abraão se lamentou. “Mas acho que não tem jeito então. O senhor poderia pelo menos manter esses livros separados para quando eu voltar amanhã?”
 “Não.”, ele respondeu, e se afastou carregando os grossos volumes encadernados para seus lugares nas prateleiras. Ficamos sentados por alguns segundos perplexos com a rispidez e falta de educação daquele homem, mas logo nos recuperamos e fomos embora.
 Deparamo-nos com uma rua deserta, como a do dia anterior. Nenhum dos comércios estava aberto e nem uma alma rondava as ruas para ser vista. Aquela brisa gelada voltava a circular por entre as ruas vazias, fazendo com que meu corpo todo tremesse involuntariamente por um instante.
 “Que surpresa agradável. Vieram conhecer nossa biblioteca?”, perguntou atrás de nós, me assustando, uma voz que reconheci como sendo a da Prefeita. Virei-me para olhá-la.
 “Realmente.”, comentei, com a voz sóbria. “Não só viemos conhecê-la, como seu acervo também.”
 “E o que acharam, se me permitem perguntar.”, falou, com uma polidez que chegava a destoar.
 “É incrível.”, respondi. “Não perde em nada para as que já vi nas grandes cidades.”
 “Bom ouvir isso. Ela é o nosso orgulho.”, a prefeita disse. “Aliás, ainda não fui apresentada ao seu amigo...”
 “Me chamo Abraão.”, ele disse, finalmente entrando na conversa. “É um prazer conhecê-la, senhora Prefeita.”
 “Sem necessidade para essas formalidades, aqui é só uma cidadezinha do interior. Pode me chamar de Margareth.”, ela falou, sorrindo.
 “Certo.”, Abraão disse. “Sua biblioteca realmente está de parabéns. Minha pesquisa sobre as tradições locais não teria avançado nem metade do que consegui hoje se não fosse por ela, Margareth.”
 “Oh, então você veio para conhecer mais sobre as tradições? Ora, por que não disse antes?”, ela fez uma cara surpresa enquanto falava. “Vou levá-lo para conhecer o que nenhum livro pode expressar. Agora mesmo na Igreja o povo deve estar reunido para a cerimônia do crepúsculo, aposto como você vai querer ver isso!”
 Tive a sensação de que meu sangue tinha parado de correr por uma fração de segundo quando ela mencionou a Igreja. O que será que fariam lá? Isso era mesmo suspeito ou era mero efeito da aura opressora que eu tinha presenciado naquele lugar?
 Não tive tempo de intervir antes que Abraão aceitasse a oferta.
 “Você também vem, Gustavo?”, Margareth virou para me chamar.
 “Ah, me desculpa, eu vou voltar para o quarto do hotel. Estou um pouco cansado depois de ler tanto o dia todo.”, dei a desculpa e ninguém insistiu. Os dois caminharam para longe, trocando informações sobre os aspectos da religião local enquanto eu me virava e voltava para o Hotel Bartimeu.
 Caí na cama assim que cheguei, mas não dormi imediatamente. Ainda estava cedo e ainda estava claro lá fora, mas não entrava pela janela nenhum som que indicasse vida naquela cidade, fora os sinos da Igreja que começaram a tocar em algum momento e pararam logo depois de alguns minutos.
 Entediado, acabei por finalmente fechar os olhos e dormir.
 Só acordei no dia seguinte, num quarto tão vazio quanto o que eu havia me deitado. Tinha certeza de que Abraão estava na biblioteca de novo, afinal já havia amanhecido há tanto tempo que quase não era mais manhã.
 Era um pouco incomum eu dormir tanto, mas nem por isso ruim. Fiquei preguiçosamente deitado por mais um bom tempo, até que decidi comer alguma coisa. Andei até um restaurante próximo ao hotel esperando encontrar alguma sobra do desjejum, para encontrar o local surpreendentemente já lotado. Demorou uma fração de segundo para que eu processasse aquela quantidade toda de gente almoçando antes mesmo das onze da manhã, mas logo dei de ombros e segui para me juntar a eles.
 A comida era muito boa, mas aquela quantidade toda de gente me incomodava. Todos que iam e vinham pareciam esconder algo por baixo de seus semblantes e eu me remexia inquieto na cadeira. Como não dava para saber pelo rosto quem seguia aquela religião local, era quase como se todos eles fizessem parte de uma enorme histeria coletiva, todos cúmplices de um massacre de séculos de duração e eu me sentia cada vez menos confortável em estar entre eles.
 Terminei minha refeição mais rápido do que a maioria dos médicos recomendaria para uma boa digestão, mesmo os mais displicentes, e voltei para o quarto. Li um pouco um livro de bolso que eu tinha trazido comigo, um clássico da literatura francesa sobre traição e vingança, mas não consegui me distrair por mais do que umas duas horas.
 Olhei para o relógio que ainda marcava poucos minutos antes das duas horas da tarde e, embora não estivesse calor nem eu estivesse muito suado, decidi tomar um banho extra além dos já planejados, só para passar o tempo.
 Quando terminei, me joguei na cama e pensei que precisava ir embora logo daquele lugar. Em vez de um descanso relaxante eu estava passando pelo mais profundo tédio trancado naquele quarto de hotel e quando saía para procurar qualquer coisa para me distrair, me sentia acuado pela presença daquele culto.
 Pensei na viagem de vinda e lembrei dos olhos de madrugada me espiando. Um calafrio subiu pela minha espinha e pude quase que vê-los na minha frente novamente. Minha mente trouxe instantaneamente outra imagem que se conectava quase que perfeitamente com aqueles olhos: A Prefeita me olhando à distância, na entrada da igreja.
 Não eram exatamente os mesmos olhos, mas o jeito como o ar ficava mais espesso ao seu redor e a sua presença... Eram idênticos, e não consegui mais afastar esse
pensamento da cabeça, por mais que inicialmente parecesse só coisa da minha imaginação.
 Em pouco tempo estava me arrumando e indo até a biblioteca para procurar por Abraão. Era melhor irmos embora antes que alguma coisa acontecesse. Eu não tinha a intenção de provocar aquelas pessoas, mas como eu poderia saber o que era provocação e o que não era numa cultura como aquelas?
 Vi poucas pessoas pela rua enquanto caminhava rapidamente, mesmo ainda nem sendo três da tarde. Quando finalmente cheguei à biblioteca, notei que ela já estava encerrando as atividades do dia.
 “Oi, espera!”, eu falei, chamando a atenção do bibliotecário que já trancava algumas portas.
 “Estamos fechados.”, ele falou, no mesmo tom mal educado de antes. “Vá embora.”
 “Droga, dá para ver que estão fechando, eu só quero perguntar se você viu uma pessoa.”, eu falei, irritado com a rispidez gratuita daquele homem. “É o meu amigo, ele esteve comigo aqui ontem.”
 “Como você espera que eu lembre de alguém assim? Eu vejo pessoas demais para lembrar de um cara qualquer.”, ele disse, se virando.
 “Olha aqui.”, eu disse, finalmente perdendo a paciência e fazendo com que ele se virasse para me encarar. “Nós fomos os últimos a sair. Se não vai me ajudar então pelo menos não desperdice meu tempo falando aqui com você.”
 “Você que está desperdiçando o seu tempo vindo falar comigo.”, ele falou.
 “Merda!”, eu exclamei, empurrando o homem para trás com tanta força que ele caiu no chão.
 Eu não estava tentando arrumar uma briga, por mais que parecesse ser exatamente o contrário. Talvez fosse a tensão que tivesse feito meu ânimo ficar tão exaltado assim, não sei ao certo, mas me virei para ir embora e continuar a procurar por Abraão e por isso não vi quando o bibliotecário me acertou nas costas, jogando meu corpo para frente, de cara no chão.
 Consegui virar a tempo de vê-lo avançar novamente contra mim e acertei as duas pernas em sua barriga, aproveitando o ímpeto de sua corrida para projetá-lo por cima de mim. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido.
 Fiquei de pé e cheguei perto do homem que tentava se levantar. Chutei seu rosto, perto do queixo, e ele desmaiou ali mesmo. Continuei por algum tempo ali, ofegando com a adrenalina correndo rápido pelas minhas veias, e então os sinos da Igreja começaram a tocar, me lembrando do que tinha que fazer.
 Foi como se as badaladas surgissem do nada e por um momento eu tive certeza de que era para lá que eu deveria ir. Como se soubesse que não encontraria meu amigo em lugar nenhum daquela cidade, só na Igreja.
 Voltei a andar, agora pelas ruas de uma cidade deserta, por onde ecoava o som forte dos sinos e um vento gelado insistia em soprar. Andei até o hotel Bartimeu primeiro, mas o quarto estava vazio, como eu temia que iria encontra-lo.
 Encarei brevemente a torre do santuário daquele culto pela janela, e ela pareceu encarar de volta. Não demorei para andar até lá, andando sem nem me preocupar com carros ou com multidões, pois não havia nem um nem outro.
 Empurrei com força as portas enormes de madeira para abri-las e conforme a fresta ia se alargando para me dar passagem, o som de um coro sinistro chegou aos meus ouvidos. Vozes graves e masculinas, como se fosse uma versão deturpada dos cantos gregorianos fizeram vibrar os meus tímpanos e um calafrio que nem mesmo o vento gélido trouxe, subiu pela minha espinha.
 Segui em frente.
 Parecia que a cidade inteira estava reunida sob o brilho dourado, todos sentados nos bancos de madeira com seus olhos voltados para mim. Somente a Prefeita, no primeiro banco continuava olhado para frente e por isso se destacou da multidão, facilitando que eu a reconhecesse.
 “Margareth!” eu chamei alto, quase gritando. “PREFEITA! Não está ouvindo?! Você sabe muito bem por que eu estou aqui!”
 Eu falava enquanto me aproximava, até finalmente encostar a mão em seu ombro direito e fazer com que se virasse.
 Seus olhos estavam fechados, mas eles foram se abrindo lentamente mostrando um tipo de paixão por trás dele que ardia forte. Se eu não fosse tão cético, diria que estava possuída. Ela me olhou e eu a olhei de volta, até que algo me acertou com força ao lado da cabeça e fui atirado ao chão.
 Olhei para cima e o bibliotecário estava ali, com o rosto sujo de um misto de poeira e sangue que havia escorrido de seu nariz e ódio estampado no rosto. Me joguei contra ele, curvando seu corpo e jogando-o no chão. Sua cabeça bateu forte contra o chão, mas ainda podia sentir seus punhos me acertando nas costas. Golpeei cegamente seu rosto algumas vezes, até que finalmente senti que ele parava de resistir.
 Não parei para ver o estado do homem, só me virei para olhar a Prefeita, que novamente encarava o altar com seus olhos fechados, como se não houvesse interrupção qualquer. Ao meu redor os inúmeros fiéis seguiam seu exemplo e agora nenhum deles me olhava, com exceção do Delegado.
 Parado à minha frente, o velho de feições duras levantou uma lata de spray que logo descobri ser de pimenta enquanto meus olhos inchavam ardendo, fui nocauteado por trás. Não cheguei a ver nem sentir o chão que acertei.
     ***
 Acordei numa posição estranha, com meus braços latejando. Senti uma dor excruciante no meu braço direito e em seguida outra no esquerdo. Tive tempo o suficiente para ver toda a multidão na Igreja, de frente e soube estava no altar, antes de desmaiar novamente por causa da dor.
 Não sei quanto demorou para eu recobrar os sentidos novamente, mas os fiéis continuavam lá.
 Abri meus olhos e como que em resposta, um homem encapuzado se adiantou. Ele chegou bem perto e eu tentei recuar, mas meus pés não tocavam no chão. Eu estava preso à cruz no altar, despido, e era o centro daquela cerimônia.
Tentei chutar, mas meus pés estavam amarrados. Não havia nada que eu pudesse fazer, enquanto o homem se aproximava para o que eu já suspeitava que seria o próximo passo do ritual. Eu era o sacrifício para a Morte e não poderia vê-la quando ela viesse.
 A última coisa que vi foi o rosto do homem enquanto ele retirava os globos oculares de minhas órbitas. Abraão me encarava friamente, fazendo seu trabalho metodicamente para que a celebração fosse bem sucedida.
 No fim das contas, nunca vi a Morte chegando. Mas ela veio.